No Princípio Era o Verso

João Carlos Silva

João Carlos Silva

Eu, poeta do amor e do infortúnio,

Soube por inspirada intuição

Que as manhãs de sol tinham cessado,

Que as tardes quentes tinham acabado

E que as noites estreladas haviam chegado ao fim.

Porém, a mesma visão certeira me disse

Que nem mesmo a morte, 

Funesta e fatal inimiga de toda a forma de vida,

Seria capaz de fazer olvidar aquele amor 

Que um dia foi maior que a própria vida,

Conferindo-lhe verdade, beleza, sentido e valor

A que só os deuses imortais podem aspirar

E aos pobres mortais,

Mesmo aos mais nobres de entre eles,

Porventura sobretudo a esses, 

nada mais resta que sonhar.

Por isso, ó morte, eu te digo

Que não te temo,

Que podes vir sem mácula nem temor,

Pois o amor que vivi por uma mulher,

A mais bela e amável de todas elas,

Tornou-me imune ao teu poder

Ao dar-me aquele saboroso vislumbre da eternidade

Que todos os mortais sonham conhecer um dia,

Que todos os homens almejam sentir e viver,

E todos os poetas ousam cantar, 

Mesmo sabendo de antemão 

Que sempre será da morte

A palavra final

Que no fim os consumirá.

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