No Rigor do Tempo

Jorge Paulo

Jorge Paulo

Depositava em mim aquela confiança absoluta que eu um dia havia deposto nos braços acolhedores dos meus pais. Mas a dor que lia nos seus olhos, quando a hora de me ir embora se aproximava, empalidecia o tempo. Sem poder chorar, para que se não apoquentasse mais, o meu coração desmoronava-se perante aquela aflição desmedida, ansiando pela minha presença no silêncio transparente das palavras que guardava. Então, cantava-lhe novamente as canções de embalar que os meus pais nos haviam cantado no tempo da minha inocência, tão perto e tão longe. E no sossego das melodias aquietava a alma até ao abraço fundo que ninguém alguma vez poderia desfazer.

Quando a custo me apartava daquele abraço, exigindo a um deus qualquer a verdade das vidas que tivéramos, já não olhava para trás, mas sabia que ele permanecia ali, retendo na memória o meu afastamento, até que o meu vulto se confundisse com a estrada distante que o destino interpunha nos nossos encontros.

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