Três semanas e um dia

Ana Teia

Ana Teia

“Abriu os olhos à escuridão. 

Não reconhece logo a casa nem o quarto, só conhece a figura encolhida a seu lado. 

O negro encaracolado pintava a almofada branca de linho e o rosto moreno recortava a luz da janela. 

No lençol, a mancha de saliva, pequena e envergonhada pelo escorrer da boca entreaberta. 

O braço amparando o queixo, conhecia-a, era a melhor amiga. 

Ou talvez a Leonor o fosse e não ela, teria de decidir isso rapidamente. 

Porque quando te perguntam quem é a tua melhor amiga, não podes hesitar, fica mal, parece que não tens certezas na vida. 

A melhor amiga define cada um, dá-lhe os contornos da sociedade onde existe. 

Uma sociedade em tempo e dinheiro, em classe social. 

Agora, não quer escolher, está enfeudada à figura da cama ao lado e é tudo. 

Tem dinheiro, tem mãe, tem festas como esta e mais amigas. 

À volta delas, os pijamas de mais três saem da sombra. 

Em camas verticais umas, e outra ao lado dela, o outro lado. 

A luz não lhe chega e permanece sombra e assim ficará até de manhã ou até o candeeiro da rua apagar. 

As empilhadas, irmãs, têm louros caracóis de histórias medievais. 

No centro, ela, nem morena nem loura, de um castanho amorfo e vulgar, sem muito dinheiro, com pais que vivem juntos e não gritam para se ouvirem. 

Os pais das outras são um puzzle louco de peças que se cruzam, em simultâneo, no tempo e no espaço.

As irmãs filhas do pai e a outra da mãe. 

E a Laura no meio das peças, a equilibrar umas e outra. 

As de fora, que não partilham pais, dormem no outro quarto, na ponta do corredor.”

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