“Paragem de autocarro” é um lugar carregado de sons. Sons de palavras que enformam o palco urbano e anónimo, as ruas sinuosas onde circulam as personagens de Lisboa. O estrépido de buzinas de automóveis, em hora de ponta. As sirenes que rasgam as cortinas matriciais da noite. As línguas que se agitam ao telemóvel, os olhares esquivos que se fitam. As pernas, nos assentos, que ligeiramente se roçam, são a matéria prima. O rumorejo, solene e cavo, que tudo enleia e aglutina. O crescendo brutal e apoteótico, que emerge dos escombros da cidade. E esse som, é o ritmo lento do pêndulo do relógio.
O som da pele, o som do frigorífico, que invade a escuridão do quarto.
